Sentado no cimo de um grande amontoado de carros acidentados prontos a ser prensados (transformados em cubos de metal), olhava em volta o aglomerado de veículos retorcidos que se estendia até ao horizonte, para onde quer que olhasse só via devastação, chapa retorcida, vidros estilhaçados, pneus rebentados e aqui e ali estofos tingidos de negro vermelho. Cada automóvel tinha uma história, desde o dia que saíra da linha de montagem até chegar aquele cemitério de solidão, onde os motores se reduziam à insignificância da inutilidade. Ficava ali sentado, horas e horas, a imaginar as estradas percorridas por aqueles montes de sucata, as pessoas que os conduziram, as longas viagens nocturnas, e as idas de casa para o emprego, imaginava tudo… Vidas pacatas, vidas estranhas, cada carro tinha uma história.

Era uma vez… Vez nenhuma!

Por vezes verde apresentava-se perante olhares que se perdiam naquela imensidão quase impossível de caber na imaginação de quem nunca a vira, outras de dourado se tingia com o imenso azul a levitar aquecido por uma estrela incandescente, tórrida, ao ponto de fazer suar os corpos mergulhados na vastidão plana sem fim à vista, quando o cinzento se tornava a cor predominante e a estrela se escondia, a terra surgia na sua cor nua, pura. Era nessa época que melhor cheirava, saciando a sede de meses entediados, bebendo das tormentas a vida.


 

Inerte caiu, abatido pela surpresa de uma bala, o peito abriu-se expulsando a vida num jacto de sangue que se elevou acima do corpo, a solidão semeada a tiro alastrou-se em sua volta abrindo uma clareira na praça.

Foi rápido, o estampido, a queda, a correria assustada, os gritos, a mancha vermelha a tingir o chão ali sem razão.

Atravessando a praça com um sorriso nos lábios e andar firme, olhava em frente na direcção desejada… Inesperadamente sentiu-se trespassar, o coração explodir e a claridade do dia turvar-se, as pernas cederem e a calçada fria atingindo-o nas costas… O cérebro misturou-lhe a vida, num segundo foi criança a rir na rua enquanto brincava, adulto feliz nos braços do amor, adolescente irreverente a sentir o vento na cara naquele dia em que comprou a mota, triste e sem esperança perante a morte do pai, deslumbrado com o nascimento do filho, amedrontado antes de ser operado, revoltado com as injustiças com que se deparou… E a cabeça tombou ali ficando entregue a um futuro que já não era seu.

 

P.E.R.D.E.

PPenalty

E – Entre

R – Rede

Ddesaparecida

E – Esfumou-se

X (para Y) – Estás me a ver?
Z – Claro que não o vê.
X – Porque falas tu por ele?
Y – Ele não fala por mim, nem o conheço!
X – A quem se refere, então?
Y – Talvez a ti!
Z – Eu não me refiro a nada, simplesmente não o vê.
Y – Quem não vê?
Z – O que nada vê, e pouco percebe.
X – com quem fala você, se não é connosco, de certo que fala sozinho!
Y – Sempre diz alguma coisa, não fica ali a olhar o jornal sem saber o que lê.
Z – Eu sei o que leio, até entendo nas entrelinhas, e garanto-lhes que vocês não sabem nada.
X – Sabemos que você diz coisas disparatadas!
Y – Não, não sabemos o que você sabe.
X – Talvez que saiba menos com julgue saber, e tenta nos confundir afim de parecer inteligente.
Z – Inteligente não pretendo ser, só por aqui passar sem que o sofrimento de muito saber me aterrorize.
Y – Divaga… Já que não passava, há algumas horas que se mantém no mesmo sitio. Acho que me vou.
Z – Vá, mas não se esqueça do cachecol.
Y – Não preciso dele, tenho o pescoço bem ornamentado.
X (para o empregado de balcão) – Um café, por favor.
Y – Algo me diz que não é hoje que se vão resolver os problemas relativos aos acontecimentos anteriores!
X – Esse algo não é este senhor que continua a ler o jornal?
Y – Não!
Z (lendo em voz alta) – “O primeiro-ministro José Sócrates pediu hoje desculpa por ter fumado no voo que transportou a comitiva governamental para a Venezuela. Em declarações aos jornalistas, na Venezuela, o primeiro-ministro diz que desconhecia que estava a violar a lei. José Sócrates adiantou ainda que decidiu deixar de fumar em definitivo, na sequência da polémica.” – Virando-se para X com um cigarro na mão – Tem lume?      

   

           

 

Flash, flash, flash…

Acenderam-se as luzes, cegando os olhos que nada viam por escura se ter tornado a noite enclausurada num corpo torpe, envolto de negrume onde a electricidade não chegara e a luz só existia (pura) na alma sem se ver.
O dia trouxe consigo o ruído luminoso que despertou e feriu de vida as artérias adormecidas, esquecidas, imaginariamente transportadas por lugares incertos onde mapa nenhum informava da sua inexistência.
De asas fixas no canto superior esquerdo da janela um avião riscava o céu prestes a desaparecer atrás da parede; sem intermitências os olhos arrastaram o corpo para aquele rectângulo incandescente e seguiram as asas hirtas (flash again), a cara ultrapassou os limites do prédio e o corpo apoiado nas mãos soergueu-se rasgando o ar frio enquanto o avião se inclinava e se escondia para além da cidade.
Ali ficou na janela, o corpo inteiro vendo tudo por breves momentos.
No 7º andar de um prédio branco onde a luz entrava e a noite escurecia.

Buracos, buracos por todo o lado, e caiam, caiam os buracos noutros buracos completamente esburacados, esburacando, furando, trespassando tudo que nos buracos caia, e continuamente, repetidamente os buracos multiplicavam-se à exacta velocidade do desaparecimento de outros buracos noutros buracos, perdidos os buracos em outros buracos que de tantos buracos já buraco nenhum se percebia onde começava e acabava; até que tentaram tapar os buracos, sem resultado diferente que aquele que se obteve de início – NADA – um imenso buraco cheio de buracos que engolia buracos e tudo que neles caia, se houve buraco que deixou de o ser rapidamente caiu num buraco que o esburacou, perfurou, aniquilou e trespassou.
Tudo continuou vazio em lado nenhum, que outrora houvera sido todo o lado.

 

Manhãs estranhas, tardes sonolentas que acordam no crepusculo apresentador de estrelas que me levam pela noite…


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