De longe avistava-se a vila com a torre da igreja a pairar sobre os telhados escuros como sombria ave agoirenta, as ruas frias e vazias eram pisadas calmamente por pessoas já idosas que amiúde saiam só por sair rompendo através do vento que era habitual naquelas terras altas. As tardes seguiam-se às manhãs antecedendo as noites quase sempre iguais, onde a monotonia de um vento monocórdico embalava a vila numa lassidão permanente. Estávamos no verão e o calor fazia esquecer o vento mantendo as pessoas no fresco interior das casas, abandonando as ruas às sombras de fim de tarde, que certo dia ganharam vida prolongando-se para além dos contornos do casario e das árvores. Estranhos vultos arrastavam-se nas sombras do dia e na penumbra da noite, desaparecendo como se nada houvesse para além de sombras, silêncio e penumbra quando alguém se aproximava. A vila foi tomada por um estranho sentimento de ansiedade um misto de medo e curiosidade que fazia com que alguns habitantes se aventurassem pelas ruas a horas que não tinham a ver com as vivencias pacatas de de tão calma população, outros pelo contrário recusavam-se a sair.
A curiosidade não satisfeita aumentou o medo e apareceram os fantasmas, espectros de uma mentalidade conservadora, a vila passou a reunir-se na igreja rezando para afastar os espíritos que se tinham abatido sobre a vila, o padre instigava os acólitos à confissão a fim de removerem os seus pecados, as vozes abafadas pelo estranho sentimento que envolvia a situação forneciam histórias mirabolantes acerca de antepassados malditos, o medo gerou terror e numa noite quente de lua cheia alguns homens decididos a afastar os espectros saíram à rua munidos de archotes, crucifixos e caçadeiras, percorreram as ruas investindo contra todas as sombras que pareciam mover-se, a marcha transformou-se em correria tresloucada, desmembrada, os homens corriam e gritavam. A vila estava acordada, as mulheres rezavam em frente a imagens religiosas enquanto os homens batiam as ruas em grande alvoroço, até os animais estavam num desassossego contagioso, as sombras multiplicavam-se aos olhos alucinados daqueles homens sedentos de vingança..
De repente um grito lancinante HAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAaaaa e o som de ossos esmagados, ouviram-se, alguns disparos de caçadeira e o chapinhar de pés numa grande poça de sangue… PAREMM Parem – gritou alguém ao aperceber-se da atrocidade cometida, aos pés de cerca de duas dezenas de homens jaziam inertes e desfigurados dois jovens namorados, ainda entrelaçados pelo que restava dos seus braços mutilados, o silêncio deixou ouvir os uivos dos lobos à lua e lentamente os restantes habitantes daquela soturna vila foram se aproximando, o choro histérico tomou conta daquelas gentes que sem saber o que lhes tinha acontecido culpavam-se mutuamente. O choque de tão terrível acontecimento apagou da memória colectiva as sombras que haviam povoado aquele verão quente.